jeudi, juin 07, 2007

Gosto, igualdade e liberalismo

No Brasil, onde todos defendem o “direito de ter uma opinião”, esquecendo no mais das vezes o dever de buscar a verdade, as coisas sempre acabam se ajeitando num subjetivismo que pouco ou nada acrescenta à própria história de cada um. Mas o fato é que bom gosto e bom senso (elementos decisivos no modo ético-estético de encarar o mundo) são questões objetivas, concretas – e não uma “terra de qualquer um”. Mas, entre nós, cada um prefere “achar” o que quer – e fim de papo. Feliz, ou infelizmente, perdi há muito esta “inocência” (na verdade, uma malandragem das boas…), e então, quando me faço a pergunta estou me colocando um grande desafio: por que este romance é bom? Não me contento com a mera sensação de prazer que sua leitura acarreta: ele é apenas um dos fatores! Há fatores igualmente importantes, como a questão semântica (o que o romance diz, os valores que transmite), a forma como o assunto é tratado (sua sintaxe, a seleção e combinação das palavras), a harmonia do conjunto, a sensação de beleza que tudo transmite… São tantas coisas em jogo! Porque, para além da avaliação específica de cada livro, existe a obrigação de inseri-lo, comparativamente, no conjunto da literatura e da cultura – tarefa a que os tolos e poltrões também se furtam, contaminando o âmbito cultural de uma idéia equivocada de democracia igualitária. Mas, queiram ou não, cultura é hierarquia!

A entrevista que o Pedro Sette Câmara fez com o Antônio Fernando Borges (que só pelos títulos dos seus romances já merece ser lido: Que fim levou Brodie?, Brás, Quincas e Cia, Memorial de Buenos Aires), publicada na revista eletrônica pequena morte e no blog pessoal de Sette Câmara, me fez pensar de novo na questão da objetividade dos julgamentos de valor que já rendeu bastante por aqui.

O que me chamou a atenção foi o ataque à "idéia equivocada de democracia igualitária" que estaria implícita na visão de que todo julgamento de valor é subjetivo. É fácil entender o raciocínio. Mais: algumas pessoas realmente defendem a relativização do valor dos bens culturais com base nesse argumento, que Fernando Borges tem razão em criticar. Mas a conclusão a que se chega pela idéia equivocada de democracia igualitária é a mesma a que se chega com a idéia acertada de democracia liberal.

A melhor definição do liberalismo que conheço vem de um professor da PUC: liberal é quem acredita que cada indivíduo sabe o que é melhor para si. Dessa idéia seguem duas conclusões importantes. A primeira é que o Estado deve se preocupar principalmente em (alguns diriam que ele deve se limitar a) informar as pessoas e impor o respeito às liberdades individuais. Por isso o Estado paternalista, que pensa saber o que é melhor para todos, é visto com desconfiança por liberais. A segunda conclusão é que as pessoas sempre escolhem o que é melhor para elas de acordo com a informação que têm.

Dito de outro modo, e para voltar à cultura: diante de uma música, um filme, um quadro ou um livro horríveis, a reação de muita gente é perguntar, "Como alguém pode gostar desse troço?" Um liberal é alguém que acha que sempre existe uma resposta lógica para essa pergunta. Não quer dizer que todo produto cultural é igualmente bom, mas que cada pessoa tem bons motivos para gostar do que gosta. A idéia contrária, de que um indivíduo ou grupo de indivíduos sabe o que é bom e os outros não, é dirigista, anti-liberal.

O "de acordo com a informação que elas têm" parece abrir uma brecha nesse raciocínio. Informação e educação estão ligados, e é tentador pensar que mais educação levaria a decisões melhores - e que, no caso da cultura, quem é mais educado sabe melhor que os outros o que é bom. Mas a educação torna as escolhas mais eficientes, não as pessoas: as escolhas culturais de uma pessoa com pouca educação são potencialmente tão defensáveis quanto as de uma pessoa bem educada. Além disso, mesmo entre indivíduos educados as escolhas culturais não fazem consenso. Experiências, gostos e expectativas diferentes levam a julgamentos diferentes. E não custa lembrar, por exemplo, que para a maioria das pessoas educadas ler mais de um livro por mês é exagero.

2 commentaires:

Felipe Palha a dit…

Dona Claclá:
No último post eu tinha feito um comentário a respeito, dizendo que tinha perdido o casamento de 3 pessoas que eu adoro (vc e Lucas e Alice), mas o parágrafo acabou não ficando na versão final... :S

Jonas Lopes a dit…

O A.F. Borges é um ótimo escritor. E um dos que mais gostei de entrevistar: http://www.screamyell.com.br/literatura/entrevista_antonio_fernando_borges.htm