Em primeiro lugar, os livros. A fonte de prazer é singular, o livro que estou lendo agora, o livro que vou ler depois. O desespero vem do plural, da quantidade de livros que nunca vou ler por simples e estúpida falta de tempo. Não sei quando começou esse problema, em que momento ler tudo o que vale a pena ser lido - ou, benção duvidosa, ler tudo o que há para ser lido - se tornou impossível. Platão e Aristóteles tinham esse problema? Homero, ou a grande tradição oral que ele provavelmente é, pensava em todas as histórias que ele jamais poderia ouvir? Eu penso. Mas imagine como seria triste a alternativa: como seria vazio o mundo após a leitura de tudo. Fracassar é melhor, mas ainda é um fracasso.
Do limite, então, a escolha: o que ler? Clássicos garantidos pelo tempo e pela crítica, ou novidades de qualidade inesperada e por isso mesmo mais recompensadora? Um tema, uma linha condutória, ou o caos da capa que chama a atenção, do título que intriga? Atravessar toda a obra de um autor ou beliscar aqui e ali as iguarias mais refinadas de um número mais ou menos grande? E esse número, mais ou menos grande? Dá para imaginar um leitor assíduo e fanático, dedicado a um Grande Autor: suas obras, as críticas às suas obras, as críticas às críticas, as obras derivadas, as obras de influência, as críticas a essas obras, as críticas a essas críticas. Ele seria mais feliz que eu, que leio a cada ano cem livros de oitenta ou noventa autores diferentes? Ele nunca pensaria em olhar por cima do muro e ver o que se passa fora daquela casa, por mais bonito o jardim?
Um livro, enfim, se escolhe, e se lê. Mas como? Ler devagar, absorvendo cada palavra e pesando sua justeza, pode ser uma delícia, mas lembre-se, não temos tempo: os livros no plural estão à nossa espera. Então lemos correndo, estabelecemos metas, lamentamos tempos perdidos - bom, eu estabeleço e lamento. Você, capaz de passar dias sem pegar um livro sem se sentir culpado, ignorante da quantidade de livros lido no mês ou de páginas lidas no dia, eu te invejo. Mas não muito, porque eu provavelmente leio mais, e você talvez me inveje por isso. Eu me invejaria.
Aliás, eu invejo, porque há sempre alguém que lê mais. Não sempre: alguém é o maior leitor do mundo em qualquer momento dado. Ele faz alguma outra coisa? Comida ou intravenosa, sono ou anfetaminas? Ele, eu não invejo. Ele não faz outra coisa, e não dá para viver de leitura. Bom, talvez dê. E talvez seja uma vida boa. Talvez eu inveje, afinal. Mas não muito.
Quando eu não quero ler - como agora - eu quero querer. Porque sei que vou querer ler mais tarde, e vou querer ler mais livros, e vou pensar nas tardes livres que passei vendo televisão ou perdendo xadrez no computador e elas não vão poder ser reembolsadas. Cada nova letra que faço aparecer na tela do meu computador é uma letra que deixei de ler. Mais, porque digito devagar. Estou perdendo um tempo precioso. Depois eu volto.
lundi, février 26, 2007
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3 commentaires:
Tá aí um texto que eu adoraria ter escrito.
Você sumiu...
Pois é, fim dos cursos e logo depois duas semanas na Itália. Mas estou de volta, aguarde um email em breve.
Excelente, concordo com o Polzonoff. Que bom que está de volta!
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