vendredi, janvier 04, 2008
Em 2008
Resolução de ano novo número 2: voltar a escrever no blog, abandonado desde o começo da Copa de Literatura Brasileira (a CLB 2008, aliás, já está sendo preparada: uma lista de pré-candidatos está disponível aqui, e quem quiser pode votar em até 16 livros para participar do torneio). Em janeiro vai ser complicado arranjar tempo no meio dos preparativos para nosso retorno ao Brasil, mas já estou preparando meu tradicional e imodesto top 5 de livros e filmes do ano, a Murta de ouro. Em breve.
samedi, septembre 29, 2007
O que aflige o conto americano - e a literatura brasileira
Na New York Times Book Review, Stephen King escreve sobre what ails the short story:
E o que King fala é válido também para a literatura brasileira. O diagnóstico já foi feito por José Paulo Paes em "Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)": sem público, o escritor escreve apenas para si e para seus colegas, se fecha num mundo auto-referencial e despreza a reação alheia em nome da busca pretensiosa pela obra-prima que talvez só ele compreenderá - e que portanto não é obra-prima coisa nenhuma.
Ainda há quem acredite que escrever só para si, sem pensar nos leitores, é o que separa o escritor de verdade do escritor vendido ao mercado. Mas, se a arte em si já é vista como inútil, o que dizer da arte sem público? Chega um momento em que é preciso se perguntar se a independência é mesmo o único valor que deve guiar nossas escolhas. Espero que cada vez mais escritores brasileiros decidam que não.
[W]riters write for whatever audience is left. In too many cases, that audience happens to consist of other writers and would-be writers who are reading the various literary magazines (and The New Yorker, of course, the holy grail of the young fiction writer) not to be entertained but to get an idea of what sells there. And this kind of reading isn’t real reading, the kind where you just can’t wait to find out what happens next (think “Youth,” by Joseph Conrad, or “Big Blonde,” by Dorothy Parker). It’s more like copping-a-feel reading. There’s something yucky about it.Pode ser surpreendente ver Stephen King lamentando, no começo do artigo, a best-sellerização do mercado literário: ele é, afinal de contas, um dos grandes ganhadores desse jogo. Por outro lado, para ele o problema do conto americano hoje é justamente a falta de leitores, a diminuição do seu campo de jogo. Sensatamente, King vê a redução da audiência como uma causa da redução da variedade e da capacidade de sedução dos contos americanos.
Last year, I read scores of stories that felt ... not quite dead on the page, I won’t go that far, but airless, somehow, and self-referring. These stories felt show-offy rather than entertaining, self-important rather than interesting, guarded and self-conscious rather than gloriously open, and worst of all, written for editors and teachers rather than for readers. The chief reason for all this, I think, is that (...) [i]t’s tough for writers to write (and editors to edit) when faced with a shrinking audience. Once, in the days of the old Saturday Evening Post, short fiction was a stadium act; now it can barely fill a coffeehouse and often performs in the company of nothing more than an acoustic guitar and a mouth organ. If the stories felt airless, why not? When circulation falters, the air in the room gets stale.
E o que King fala é válido também para a literatura brasileira. O diagnóstico já foi feito por José Paulo Paes em "Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)": sem público, o escritor escreve apenas para si e para seus colegas, se fecha num mundo auto-referencial e despreza a reação alheia em nome da busca pretensiosa pela obra-prima que talvez só ele compreenderá - e que portanto não é obra-prima coisa nenhuma.
Ainda há quem acredite que escrever só para si, sem pensar nos leitores, é o que separa o escritor de verdade do escritor vendido ao mercado. Mas, se a arte em si já é vista como inútil, o que dizer da arte sem público? Chega um momento em que é preciso se perguntar se a independência é mesmo o único valor que deve guiar nossas escolhas. Espero que cada vez mais escritores brasileiros decidam que não.
dimanche, septembre 09, 2007
dimanche, août 19, 2007
Literariamente interessante
It's when people begin to fancy that they actually know something about literature that they cease to be literarily interesting, or even of any use to those who are.
David Foster Wallace, The broom of the system
David Foster Wallace, The broom of the system
samedi, août 18, 2007
CLB: entrevista e site
No Digestivo Cultural, uma entrevista minha sobre a Copa de Literatura Brasileira. E o site da Copa já está no ar, com a tabela de jogos, um texto de apresentação e uma pergunta para os estimados leitores: quem será o vencedor?
lundi, août 13, 2007
mercredi, août 08, 2007
Aquele outro prêmio
Apesar de toda a animação em torno da Copa de Literatura Brasileira, é bom prestar atenção em prêmios menos conhecidos mas não necessariamente desimportantes. Por exemplo, parece que um tal de Booker Prize anunciou sua longlist hoje:
- Darkmans, de Nicola Barker (4th Estate)
- Self Help, de Edward Docx (Picador)
- The Gift Of Rain, de Tan Twan Eng (Myrmidon)
- The Gathering, de Anne Enright (Jonathan Cape)
- The Reluctant Fundamentalist, de Mohsin Hamid (Hamish Hamilton)
- The Welsh Girl, de Peter Ho Davies (Sceptre)
- Mister Pip, de Lloyd Jones (John Murray)
- Gifted, de Nikita Lalwani (Viking)
- On Chesil Beach, de Ian McEwan (Jonathan Cape)
- What Was Lost, de Catherine O’Flynn (Tindal Street)
- Consolation, de Michael Redhill (William Heinemann)
- Animal’s People, de Indra Sinha (Simon & Schuster)
- Winnie & Wolf by A.N.Wilson (Hutchinson)
Hora de uma partida rápida de Humilhação: o único autor que conheço entre os indicados é o Ian McEwan, e o único livro de que ouvi falar além de On Chesil Beach é The Reluctant Fundamentalist. Como acho que ser favorito ao Booker é uma grande roubada, me arrisco a dizer que os dois livros não vão sequer estar na shortlist. Mas torço pelo McEwan: ainda não li On Chesil Beach, mas estão devendo um Booker para ele por Reparação.
- Darkmans, de Nicola Barker (4th Estate)
- Self Help, de Edward Docx (Picador)
- The Gift Of Rain, de Tan Twan Eng (Myrmidon)
- The Gathering, de Anne Enright (Jonathan Cape)
- The Reluctant Fundamentalist, de Mohsin Hamid (Hamish Hamilton)
- The Welsh Girl, de Peter Ho Davies (Sceptre)
- Mister Pip, de Lloyd Jones (John Murray)
- Gifted, de Nikita Lalwani (Viking)
- On Chesil Beach, de Ian McEwan (Jonathan Cape)
- What Was Lost, de Catherine O’Flynn (Tindal Street)
- Consolation, de Michael Redhill (William Heinemann)
- Animal’s People, de Indra Sinha (Simon & Schuster)
- Winnie & Wolf by A.N.Wilson (Hutchinson)
Hora de uma partida rápida de Humilhação: o único autor que conheço entre os indicados é o Ian McEwan, e o único livro de que ouvi falar além de On Chesil Beach é The Reluctant Fundamentalist. Como acho que ser favorito ao Booker é uma grande roubada, me arrisco a dizer que os dois livros não vão sequer estar na shortlist. Mas torço pelo McEwan: ainda não li On Chesil Beach, mas estão devendo um Booker para ele por Reparação.
dimanche, août 05, 2007
Você é autista?
Na verdade, o teste (altamente científico) é para saber se você tem síndrome de Asperger, a doença do protagonista de The curious incident of the dog in the night-time. A pontuação vai de zero a cinquenta; 32 ou mais means trouble.
Tirei 29. Por pouco.
Tirei 29. Por pouco.
De onde menos se espera
In many ways, the work of a critic is easy. We risk very little yet enjoy a position over those who offer up their work and their selves to our judgment. We thrive on negative criticism, which is fun to write and to read. But the bitter truth we critics must face is that, in the grand scheme of things, the average piece of junk is more meaningful than our criticism designating it so. But there are times when a critic truly risks something, and that is in the discovery and defense of the new.Anton Ego, o severo mas justo crítico gastronômico de Ratatouille
lundi, juillet 30, 2007
Mais ainda mais sobre a Copa
O Leandro Oliveira, do Odisséia Literária, anuncia o fim das férias e sua participação como jurado na Copa de Literatura Brasileira. E o Gravatá, do Globo, coloca a CLB como matéria principal da sua coluna no Info Etc. Estou bobo.
dimanche, juillet 29, 2007
E ainda mais Copa
André Gazola, jurado da Copa de Literatura Brasileira, também escreveu sobre o prêmio e fez algo que eu deveria ter feito há um tempo: publicou as capas de, e um parágrafo sobre, cada um dos 16 livros concorrentes. Aqui.
samedi, juillet 28, 2007
Mais sobre a Copa
O anúncio da Copa de Literatura Brasileira gerou algumas reações. Muitos jurados - o Bruno Garschagen, o Eduardo Carvalho, o Rafael Rodrigues, a Olivia Maia, a Renata Miloni - apresentaram o prêmio nos seus blogs; o Sérgio Rodrigues, que é um dos concorrentes, gostou da idéia, assim como o Tiago Casagrande. Já o Edson Junior ficou com um pé atrás e fez várias perguntas sobre o prêmio. Na esperança de que outras pessoas estejam interessadas, explico a idéia melhor.
A Copa de Literatura funciona como, bom, como uma copa. Os dezesseis livros são divididos em oito grupos de dois. Para cada grupo, um jurado escolhe que livro merece passar para a segunda fase. Na segunda fase, portanto, há oito livros, divididos em quatro grupos de dois. De novo, cada grupo é designado a um jurado que elimina um livro da competição. Sobram quatro livros em dois grupos de dois; o processo se repete, sobram dois livros, e aí todos os jurados votam para escolher o vencedor. O meu voto serve para decidir a final na pouco provável hipótese de um empate.
Se a explicação não ajudou muito, visite o site da versão original da Copa, o Tournament of Books. Viu? É simples, apesar da minha explicação confusa.
As chaves da Copa já foram decididas e serão anunciadas em breve. Os jurados estão começando a receber e a ler os livros. Como essa é a primeira edição do prêmio, adaptações podem ser necessárias ao longo do caminho; se for o caso, aviso por aqui. Até breve.
A Copa de Literatura funciona como, bom, como uma copa. Os dezesseis livros são divididos em oito grupos de dois. Para cada grupo, um jurado escolhe que livro merece passar para a segunda fase. Na segunda fase, portanto, há oito livros, divididos em quatro grupos de dois. De novo, cada grupo é designado a um jurado que elimina um livro da competição. Sobram quatro livros em dois grupos de dois; o processo se repete, sobram dois livros, e aí todos os jurados votam para escolher o vencedor. O meu voto serve para decidir a final na pouco provável hipótese de um empate.
Se a explicação não ajudou muito, visite o site da versão original da Copa, o Tournament of Books. Viu? É simples, apesar da minha explicação confusa.
As chaves da Copa já foram decididas e serão anunciadas em breve. Os jurados estão começando a receber e a ler os livros. Como essa é a primeira edição do prêmio, adaptações podem ser necessárias ao longo do caminho; se for o caso, aviso por aqui. Até breve.
mercredi, juillet 25, 2007
Dia do Escritor
Diz o André que é amanhã. E ele propõe dez questões para festejar a data:
1 - Que livro você está lendo?
Quase todo leitor sério responde a essa pergunta com vários livros. Eu tentei ler mais de um livro ao mesmo tempo algumas vezes, mas continuo preferindo me dedicar a um por vez. O de agora é Martin Dressler - The The tale of an American dreamer, de Steven Millhauser. Comecei ontem e deveria estar lendo agora, para cumprir a cota do dia. Pois é, eu tenho uma cota. Veja abaixo.
2 - Lembra do seu primeiro livro?
Acho que a primeira experiência de leitura de que me lembro é O pequeno príncipe, que li no carro indo da casa da minha mãe (Piratininga, Niterói) à casa da minha avó (Botafogo, Rio). Fiquei imensamente triste. Livro de miss é o cacete.
3 - No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Eu tento ler cem páginas por dia, todo dia, o que daria em média dez livros por mês. Mas costumo superar essa marca, lendo livros mais curtos ou rápidos - incluindo quadrinhos, que contabilizo junto com os livros "normais". Em julho li quatro livros, nenhum deles muito grande, o que significa que estou descumprindo minha cota frequentemente. Eu deveria estar lendo agora.
4 - Você tem um gênero favorito? Qual?
Tenho grande simpatia pela ficção científica, mas leio muito pouco do gênero. Meu gênero preferido seria essa coisa misteriosa e pomposa chamada "ficção literária", que no fundo não quer dizer nada. Livros policiais também me comovem: um dos meus autores prediletos durante a adolescência era a Agatha Christie, que temo reler hoje e me decepcionar.
5 - Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como "seres superiores" por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?
James Joyce é a minha resposta automática a quem me pede meu autor favorito, por causa basicamente de Ulisses. Há na obra de Joyce uma ambição, uma grandiosidade e uma independência que podem ser admiradas ou criticadas, mas não ignoradas. Mesmo quando não gosto de Joyce - como quando me pergunto, custava ter criado uma história decente para Finnegans wake? - admiro o que ele estava fazendo.
6 - Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?
Boa pergunta. Todo mundo que escreve é escritor, mas poesia e ficção - romance e conto podem entrar no mesmo saco - exigem talentos bem diferentes. Como não gosto muito de poesia, quando falo em escritores em geral estou pensando em ficcionistas.
7 - A Internet pode se transformar em ameaça para a leitura de livros?
Pode, mas não se preocupe. O romance só se consolidou como o graal da literatura no começo do século 19, e talvez a Internet o faça perder sua primazia. Mas se isso acontecer outro tipo de literatura - talvez contos, talvez algo bastante diferente - tomará seu lugar. A Internet, por outro lado, não ameaça a literatura em si.
8 - Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Essa merece um livro. Analfabetismo: incentivo para a educação. Programas do estilo Bolsa Escola, ou Família, sei lá, mas principalmente acesso à universidade para os pobres. Cotas sociais, talvez. O importante é deixar claro que existe uma recompensa, financeira e social, para quem estuda.
Hábito de leitura: nada. Todos deveriam aprender a ler, mas lê quem quer. Mais leitura é uma boa notícia porque quer dizer que, tudo o mais constante, as pessoas têm mais educação formal, mas em si não tem muita importância.
9 - José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?
Pode mudar, claro. Pobre escritor, ele é um mortal como todos nós.
10 - Uma frase para o Dia do Escritor:
Para manter a perspectiva:
"Não acredito, sinceramente, que a arte mude a vida de ninguém. Parafraseando um amigo sábio - e contestando o igualmente sábio Harold Bloom -, a oscilação de um ponto no índice Dow Jones tem mais importância que toda a obra de Shakespeare." - Michel Laub
1 - Que livro você está lendo?
Quase todo leitor sério responde a essa pergunta com vários livros. Eu tentei ler mais de um livro ao mesmo tempo algumas vezes, mas continuo preferindo me dedicar a um por vez. O de agora é Martin Dressler - The The tale of an American dreamer, de Steven Millhauser. Comecei ontem e deveria estar lendo agora, para cumprir a cota do dia. Pois é, eu tenho uma cota. Veja abaixo.
2 - Lembra do seu primeiro livro?
Acho que a primeira experiência de leitura de que me lembro é O pequeno príncipe, que li no carro indo da casa da minha mãe (Piratininga, Niterói) à casa da minha avó (Botafogo, Rio). Fiquei imensamente triste. Livro de miss é o cacete.
3 - No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Eu tento ler cem páginas por dia, todo dia, o que daria em média dez livros por mês. Mas costumo superar essa marca, lendo livros mais curtos ou rápidos - incluindo quadrinhos, que contabilizo junto com os livros "normais". Em julho li quatro livros, nenhum deles muito grande, o que significa que estou descumprindo minha cota frequentemente. Eu deveria estar lendo agora.
4 - Você tem um gênero favorito? Qual?
Tenho grande simpatia pela ficção científica, mas leio muito pouco do gênero. Meu gênero preferido seria essa coisa misteriosa e pomposa chamada "ficção literária", que no fundo não quer dizer nada. Livros policiais também me comovem: um dos meus autores prediletos durante a adolescência era a Agatha Christie, que temo reler hoje e me decepcionar.
5 - Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como "seres superiores" por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?
James Joyce é a minha resposta automática a quem me pede meu autor favorito, por causa basicamente de Ulisses. Há na obra de Joyce uma ambição, uma grandiosidade e uma independência que podem ser admiradas ou criticadas, mas não ignoradas. Mesmo quando não gosto de Joyce - como quando me pergunto, custava ter criado uma história decente para Finnegans wake? - admiro o que ele estava fazendo.
6 - Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?
Boa pergunta. Todo mundo que escreve é escritor, mas poesia e ficção - romance e conto podem entrar no mesmo saco - exigem talentos bem diferentes. Como não gosto muito de poesia, quando falo em escritores em geral estou pensando em ficcionistas.
7 - A Internet pode se transformar em ameaça para a leitura de livros?
Pode, mas não se preocupe. O romance só se consolidou como o graal da literatura no começo do século 19, e talvez a Internet o faça perder sua primazia. Mas se isso acontecer outro tipo de literatura - talvez contos, talvez algo bastante diferente - tomará seu lugar. A Internet, por outro lado, não ameaça a literatura em si.
8 - Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Essa merece um livro. Analfabetismo: incentivo para a educação. Programas do estilo Bolsa Escola, ou Família, sei lá, mas principalmente acesso à universidade para os pobres. Cotas sociais, talvez. O importante é deixar claro que existe uma recompensa, financeira e social, para quem estuda.
Hábito de leitura: nada. Todos deveriam aprender a ler, mas lê quem quer. Mais leitura é uma boa notícia porque quer dizer que, tudo o mais constante, as pessoas têm mais educação formal, mas em si não tem muita importância.
9 - José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?
Pode mudar, claro. Pobre escritor, ele é um mortal como todos nós.
10 - Uma frase para o Dia do Escritor:
Para manter a perspectiva:
"Não acredito, sinceramente, que a arte mude a vida de ninguém. Parafraseando um amigo sábio - e contestando o igualmente sábio Harold Bloom -, a oscilação de um ponto no índice Dow Jones tem mais importância que toda a obra de Shakespeare." - Michel Laub
vendredi, juillet 20, 2007
Apresentando a Copa de Literatura Brasileira
É preciso fé para acreditar na eficiência dos prêmios literários. Um punhado de jurados se dedica a definir o melhor livro do ano; os jurados mudam de ano a ano, os lançamentos são tantos que é impossível lê-los todos e o próprio conceito de "melhor" é difícil de ser definido, mas de alguma forma o público é convidado a pensar que o processo funciona. Estatisticamente, essa esperança é um ultraje.
Escrevo isso como alguém que adora prêmios, literários ou não. Já passei algumas noites em claro vendo o Oscar, e poucos eventos regularmente repetidos me parecem tão cheios de drama quanto a apuração das notas do desfile das escolas de samba. Além da emoção barata, porém, prêmios literários são um meio justificado pelo fim: não se trata de eleger o melhor livro do ano mas de guiar o público, provocar o debate, criar expectativas e, inevitavelmente, causar decepções. O prêmio em si interessa pouco: bom é discutir quem merece ganhar antes e reclamar de quem ganhou e não devia depois.
Mas a maioria dos prêmios literários oferece pouco assunto para a conversa. As explicações que acompanham a decisão, quando existem, são platitudes justificadamente ignoradas pelo público. Ficamos sabendo quem ganhou, não como nem por quê; podemos discutir a escolha, não as razões. Os jurados, sem ser anônimos, são protegidos, suas preferências particulares dissimuladas pelo nome do prêmio, pela impessoalidade da decisão.
Um prêmio que se vende como capaz de escolher regularmente o melhor livro do ano não pode expor ao público nem os gostos dos seus jurados, nem as falhas do seu processo. Mas se a idéia é, como acredito que sempre seja, simplesmente falar de livros, por que não mostrar o processo por inteiro? Por que não dar voz e espaço a cada jurado para explicar sua escolha? E, se escolher o melhor é estatisticamente impossível, por que não tornar o prêmio mais emocionante com um regulamento em que, como nos torneios esportivos, os livros se enfrentam um ao outro até que reste apenas um?
Essa é a idéia da Copa de Literatura Brasileira. Dezesseis livros se enfrentam em quinze jogos. Cada jogo é decidido por um jurado, que explica e justifica sua decisão para o público. O campeão talvez seja o melhor romance brasileiro do ano, talvez não. Provavelmente não. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente.
A Copa de Literatura Brasileira é inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell's. Os jurados estão a postos:
Francisco José Viegas
Paulo Polzonoff
Jonas Lopes
Leandro Oliveira
Rafael Rodrigues
Bruno Garschagen
Marco Polli
Olivia Maia
Renata Miloni
Antônio Marcos Pereira
André Gazola
Eduardo Carvalho
Doutor Plausível
Jefferson
Os livros já foram escolhidos:
Mãos de cavalo, de Daniel Galera
O movimento pendular, de Alberto Mussa
As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues
O segundo tempo, de Michel Laub
Bóris e Dóris, de Luiz Vilela
Os vendilhões do templo, de Moacyr Scliar
O paraíso é bem bacana, de André Sant'Anna
Memorial de Buenos Aires, de Antonio Fernando Borges
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves
Música perdida, de Luiz Antônio de Assis Brasil
Corpo estranho, de Adriana Lunardi
Por que sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich
O que contei a Zveiter sobre sexo, de Flávio Braga
Pelo fundo da agulha, de Antônio Torres
Leda, de Roberto Pompeu de Toledo
O adiantado da hora, de Carlos Heitor Cony
O site da Copa está sendo preparado. Aguardem mais notícias.
Escrevo isso como alguém que adora prêmios, literários ou não. Já passei algumas noites em claro vendo o Oscar, e poucos eventos regularmente repetidos me parecem tão cheios de drama quanto a apuração das notas do desfile das escolas de samba. Além da emoção barata, porém, prêmios literários são um meio justificado pelo fim: não se trata de eleger o melhor livro do ano mas de guiar o público, provocar o debate, criar expectativas e, inevitavelmente, causar decepções. O prêmio em si interessa pouco: bom é discutir quem merece ganhar antes e reclamar de quem ganhou e não devia depois.
Mas a maioria dos prêmios literários oferece pouco assunto para a conversa. As explicações que acompanham a decisão, quando existem, são platitudes justificadamente ignoradas pelo público. Ficamos sabendo quem ganhou, não como nem por quê; podemos discutir a escolha, não as razões. Os jurados, sem ser anônimos, são protegidos, suas preferências particulares dissimuladas pelo nome do prêmio, pela impessoalidade da decisão.
Um prêmio que se vende como capaz de escolher regularmente o melhor livro do ano não pode expor ao público nem os gostos dos seus jurados, nem as falhas do seu processo. Mas se a idéia é, como acredito que sempre seja, simplesmente falar de livros, por que não mostrar o processo por inteiro? Por que não dar voz e espaço a cada jurado para explicar sua escolha? E, se escolher o melhor é estatisticamente impossível, por que não tornar o prêmio mais emocionante com um regulamento em que, como nos torneios esportivos, os livros se enfrentam um ao outro até que reste apenas um?
Essa é a idéia da Copa de Literatura Brasileira. Dezesseis livros se enfrentam em quinze jogos. Cada jogo é decidido por um jurado, que explica e justifica sua decisão para o público. O campeão talvez seja o melhor romance brasileiro do ano, talvez não. Provavelmente não. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente.
A Copa de Literatura Brasileira é inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell's. Os jurados estão a postos:
Francisco José Viegas
Paulo Polzonoff
Jonas Lopes
Leandro Oliveira
Rafael Rodrigues
Bruno Garschagen
Marco Polli
Olivia Maia
Renata Miloni
Antônio Marcos Pereira
André Gazola
Eduardo Carvalho
Doutor Plausível
Jefferson
Os livros já foram escolhidos:
Mãos de cavalo, de Daniel Galera
O movimento pendular, de Alberto Mussa
As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues
O segundo tempo, de Michel Laub
Bóris e Dóris, de Luiz Vilela
Os vendilhões do templo, de Moacyr Scliar
O paraíso é bem bacana, de André Sant'Anna
Memorial de Buenos Aires, de Antonio Fernando Borges
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves
Música perdida, de Luiz Antônio de Assis Brasil
Corpo estranho, de Adriana Lunardi
Por que sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich
O que contei a Zveiter sobre sexo, de Flávio Braga
Pelo fundo da agulha, de Antônio Torres
Leda, de Roberto Pompeu de Toledo
O adiantado da hora, de Carlos Heitor Cony
O site da Copa está sendo preparado. Aguardem mais notícias.
dimanche, juillet 01, 2007
William Boyd sobre Lanark
No Guardian, William Boyd escreve sobre a experiência de reler Lanark hoje e de resenhar o livro na época do seu lançamento, em 1981. Dois trechos interessantes:
Ler esse parágrafo me faz pensar no eterno work in progress de Benjamin Trotter em The closed circle, de Jonathan Coe, ou no Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell - ou nas minhas ambições adolescentes de escrever o livro dos livros, completo e descomunal, uma obra de fôlego e talento insuperáveis. Faz bem saber que alguém no mundo conseguiu não decepcionar as expectativas criadas em si mesmo e ao seu redor, que os trinta anos que Gray passou escrevendo Lanark não foram em vão.
Using criticism of others to evaluate and proclaim what I myself stood for é compreensível, mas uma pena. Entendo a criação de movimentos literários, de grupos de autores que escrevem mais ou menos do mesmo jeito e decidem se apoiar uns aos outros, mas não sei por que esse apoio deveria ter como contraponto um ataque aos que pensam e escrevem de outra forma. Um poeta concretista ou parnasiano ou romântico gostaria de um mundo em que só o seu tipo de poesia existisse? Difícil pensar que sim, mas às vezes é a impressão que se tem. E por isso é bom ver Boyd fazendo essa pequena mas importante reconsideração, e analisando o livro de acordo com as intenções do autor, não de si próprio.
Lanark, com uma nova introdução de William Boyd, acaba de ser relançado pela Canongate. No Brasil, o livro foi lançado pela Record. Vale muito a pena.
I had heard of Lanark long before I had the opportunity to read it. In the early 70s, when I was studying for my MA at the University of Glasgow, there was occasional talk of Lanark among my circle of friends. Alasdair Gray was someone known to me by sight (we had mutual friends) and by reputation as a painter and muralist. Doubtless we drank in the same pub - The Pewter Pot in North Woodside Road - from time to time, but I don't remember ever meeting him properly. However, Lanark had something of the whiff of legend about it, even then: it was reputed to be a vast novel, decades in the writing, still to see the light of day. Rather like equally heralded masterworks-in-progress, such as Truman Capote's Answered Prayers or Harold Brodkey's Runaway Soul, Lanark was talked about as an impossibly gargantuan, time-consuming labour of love, 1,000 pages long, Glasgow's Ulysses - such were the myths swirling about the book at the time, as far as I can recall. And so, finally, to have Lanark in my hand a few years later was something of a shock: it was indeed long, 560 pages, and it bore Gray's highly distinctive black and white drawings on the cover and inside.
Ler esse parágrafo me faz pensar no eterno work in progress de Benjamin Trotter em The closed circle, de Jonathan Coe, ou no Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell - ou nas minhas ambições adolescentes de escrever o livro dos livros, completo e descomunal, uma obra de fôlego e talento insuperáveis. Faz bem saber que alguém no mundo conseguiu não decepcionar as expectativas criadas em si mesmo e ao seu redor, que os trinta anos que Gray passou escrevendo Lanark não foram em vão.
Rereading my review I can see how much I enjoyed the novel, but my appreciation was not unequivocal. I particularly relished the two books about Duncan Thaw in Glasgow, but I was less taken with the allegorical counterpoint of the eponymous Lanark in the city of Unthank. (...)
I know now why I didn't respond with wholehearted enthusiasm to the allegorical story of Lanark in the city of Unthank. I was positioning myself, as all writers unconsciously do - and particularly a writer whose first novel had just been published - using criticism of others to evaluate and proclaim what I myself stood for. I was and am a realistic novelist and I felt strongly then that fable, allegory, surrealism, fantasy, magic realism and the rest were not my literary cup of tea. But I think that in my 1981 review I unconsciously prefigured aspects of my recent, late reading of the book. The structure of Lanark - the small naturalistic novel embedded in a large eclectic one - is, it seems to me now, precisely the reason for the book's enduring success. I realise now that, for Gray, the last thing on earth he wanted to achieve in Lanark was to write, and be hailed for writing, "a minor classic of the literature of adolescence". As we have since come to know, that was indeed what he had done first - Thaw's story was written initially and discretely and is a reimagining of a life close to Gray's own. But it could never have been enough: every ambition that Gray had for his long-gestating book obliged him to create something larger, more complex, more difficult, more alienating. Gray needed the overarching machinery of allegory and fable to make Lanark transcend its origins.
Using criticism of others to evaluate and proclaim what I myself stood for é compreensível, mas uma pena. Entendo a criação de movimentos literários, de grupos de autores que escrevem mais ou menos do mesmo jeito e decidem se apoiar uns aos outros, mas não sei por que esse apoio deveria ter como contraponto um ataque aos que pensam e escrevem de outra forma. Um poeta concretista ou parnasiano ou romântico gostaria de um mundo em que só o seu tipo de poesia existisse? Difícil pensar que sim, mas às vezes é a impressão que se tem. E por isso é bom ver Boyd fazendo essa pequena mas importante reconsideração, e analisando o livro de acordo com as intenções do autor, não de si próprio.
Lanark, com uma nova introdução de William Boyd, acaba de ser relançado pela Canongate. No Brasil, o livro foi lançado pela Record. Vale muito a pena.
vendredi, juin 29, 2007
Por que ler os novos
O André Gazola postou dez motivos para ler livros atuais. Eu acrescentaria um: a possibilidade de ler algo completamente novo e desconhecido, de ter a certeza que a sua opinião é realmente sua e principalmente de poder descobrir um talento antes dos outros. É um sentimento baixo que não condiz com a deferência normalmente reservada à literatura, mas poder levantar um cartaz imaginário dizendo "Eu já sabia" quando o resto do mundo começa a falar daquele escritor que você desenterrou do fundo da prateleira empoeirada de uma livraria é um sentimento delicioso. Ou deve ser, nunca tive o prazer.
mardi, juin 26, 2007
A vitória do nerd literário
Uma matéria brilhante do LA Times descreve a historia da maior coleção de ficção cientifica do mundo, a da universidade de Riverside, California: 110 mil volumes dedicados ao gênero. A historia da coleção, que foi motivo de escárnio e protestos ao ser criada em 1979 e hoje recebe mais da metade do dinheiro reservado à aquisição de livros pela faculdade, retrata o processo de canonização acadêmica da ficção cientifica que segue o triunfo popular do gênero.
No Brasil, tirando o Marcelo Cassaro (que só conheço graças à época em que eu comprava revistas de RPG), não sei de nenhum autor de ficção científica. Em outros tempos eu pensaria que é por essas é outras que no Brasil se lê pouco, mas hoje acho que é o contrário: a literatura popular não existe no Brasil por falta de público. (Passei de clássico a keynesiano.) A simples mensuração da tarefa de educar uma centena de milhões de pessoas é tão difícil que dá para entender porque autores e editores preferem lutar por paliativos: bolsas, subsídios, reduções de imposto. Mas sem leitores não há literatura de verdade - e sim, a falta de escritores de ficção científica é um indício de que falta literatura de verdade no Brasil.
No Brasil, tirando o Marcelo Cassaro (que só conheço graças à época em que eu comprava revistas de RPG), não sei de nenhum autor de ficção científica. Em outros tempos eu pensaria que é por essas é outras que no Brasil se lê pouco, mas hoje acho que é o contrário: a literatura popular não existe no Brasil por falta de público. (Passei de clássico a keynesiano.) A simples mensuração da tarefa de educar uma centena de milhões de pessoas é tão difícil que dá para entender porque autores e editores preferem lutar por paliativos: bolsas, subsídios, reduções de imposto. Mas sem leitores não há literatura de verdade - e sim, a falta de escritores de ficção científica é um indício de que falta literatura de verdade no Brasil.
dimanche, juin 24, 2007
Leituras: Alan Moore
Anotações para um livro sobre Alan Moore e, particularmente, Anatomy Lesson (Swamp Thing #21, fevereiro de 1984)
O que mais impressiona no trabalho de Moore é sua versatilidade. O realismo incongruente de Watchmen tem pouco a ver com o realismo sombrio de From hell e quase nada a ver com os igualmente diferentes entre si Tom Strong (paródia dos super-heróis clássicos como Super-Homem ou Capitão Marvel), League of extraodinary gentlemen (pastiche dos romances de aventura e fantásticos do fin de siècle) e Top 10 (um seriado policial numa cidade em que todos os habitantes têm algum tipo de super-poder).
Nos anos noventa, a Kitchen Sink Press lançou uma revista com novas aventuras do Spirit escritas por grandes nomes dos quadrinhos contemporâneos. Cada uma das três histórias do primeiro número, todas escritas por Moore, poderia ter sido assinada por Will Eisner. No segundo número da revista, o prato principal era uma história do Neil Gaiman estrelada por um Quentin Tarantino fictício. Não era uma má história, mas era uma história do Neil Gaiman, enquanto Moore havia escrito três histórias do Spirit.
*
Wacthmen, considerada a obra-prima de Moore, é entre outras coisas um estudo quase científico sobre como o nosso mundo seria se vigilantes mascarados existissem. Em Whatever happened to the Man of Tomorrow?, lançada pouco antes da Crisis of Infinite Earths que redefiniu o universo DC em meados dos anos 80 e apresentada como a última história do Super-Homem, aplica a mesma lógica ao Homem de Aço. Um exemplo entre muitos: Bizarro, o estranho Super-Homem de uma realidade alternativa que é o exato oposto da nossa, se mata porque se o "verdadeiro" Super-Homem está vivo o Super-Homem bizarro tem que estar morto. O resto da história segue a mesma linha, um acerto de contas respeitoso mas impiedoso da realidade com a lenda.
*
Com suspense e ritmo impecáveis, Moore alcança em Anatomy Lesson o Santo Graal das histórias em quadrinhos, reconstruindo completamente a história de um personagem sem desrespeitar o que já fora escrito. O Monstro do Pântano, um homem que se transformou num gigante formado de plantas após sobreviver a um atentado a bomba, é reinterpretado como um monte de plantas que imagina ser um homem morto. Difícil encontrar reviravolta mais impactante e ao mesmo tempo (no mundo das histórias em quadrinhos) plausível.
A qualidade da história é justamente igualada pelo seu impacto no mundo dos quadrinhos. Anatomy Lesson é o ponto zero de dois fenômenos fundamentais para os quadrinhos americanos contemporâneos, a invasão britânica (que continua até hoje, com Warren Ellis e os trabalhos de Grant Morrison com vacas sagradas como Batman, Super-Homem e X-Men) e o selo Vertigo da DC (criado para as histórias na linha do Monstro do Pântano de Moore, ligadas por personagens ou estética aos quadrinhos clássicos de super-heróis mas voltadas a um público adulto: Sandman, Hellblazer, Preacher, Transmetropolitan, Fables, Y: the Last Man).
O que mais impressiona no trabalho de Moore é sua versatilidade. O realismo incongruente de Watchmen tem pouco a ver com o realismo sombrio de From hell e quase nada a ver com os igualmente diferentes entre si Tom Strong (paródia dos super-heróis clássicos como Super-Homem ou Capitão Marvel), League of extraodinary gentlemen (pastiche dos romances de aventura e fantásticos do fin de siècle) e Top 10 (um seriado policial numa cidade em que todos os habitantes têm algum tipo de super-poder).
Nos anos noventa, a Kitchen Sink Press lançou uma revista com novas aventuras do Spirit escritas por grandes nomes dos quadrinhos contemporâneos. Cada uma das três histórias do primeiro número, todas escritas por Moore, poderia ter sido assinada por Will Eisner. No segundo número da revista, o prato principal era uma história do Neil Gaiman estrelada por um Quentin Tarantino fictício. Não era uma má história, mas era uma história do Neil Gaiman, enquanto Moore havia escrito três histórias do Spirit.
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Wacthmen, considerada a obra-prima de Moore, é entre outras coisas um estudo quase científico sobre como o nosso mundo seria se vigilantes mascarados existissem. Em Whatever happened to the Man of Tomorrow?, lançada pouco antes da Crisis of Infinite Earths que redefiniu o universo DC em meados dos anos 80 e apresentada como a última história do Super-Homem, aplica a mesma lógica ao Homem de Aço. Um exemplo entre muitos: Bizarro, o estranho Super-Homem de uma realidade alternativa que é o exato oposto da nossa, se mata porque se o "verdadeiro" Super-Homem está vivo o Super-Homem bizarro tem que estar morto. O resto da história segue a mesma linha, um acerto de contas respeitoso mas impiedoso da realidade com a lenda.
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Com suspense e ritmo impecáveis, Moore alcança em Anatomy Lesson o Santo Graal das histórias em quadrinhos, reconstruindo completamente a história de um personagem sem desrespeitar o que já fora escrito. O Monstro do Pântano, um homem que se transformou num gigante formado de plantas após sobreviver a um atentado a bomba, é reinterpretado como um monte de plantas que imagina ser um homem morto. Difícil encontrar reviravolta mais impactante e ao mesmo tempo (no mundo das histórias em quadrinhos) plausível.
A qualidade da história é justamente igualada pelo seu impacto no mundo dos quadrinhos. Anatomy Lesson é o ponto zero de dois fenômenos fundamentais para os quadrinhos americanos contemporâneos, a invasão britânica (que continua até hoje, com Warren Ellis e os trabalhos de Grant Morrison com vacas sagradas como Batman, Super-Homem e X-Men) e o selo Vertigo da DC (criado para as histórias na linha do Monstro do Pântano de Moore, ligadas por personagens ou estética aos quadrinhos clássicos de super-heróis mas voltadas a um público adulto: Sandman, Hellblazer, Preacher, Transmetropolitan, Fables, Y: the Last Man).
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